15 de dez. de 2011

Racistas não conhecem História


Semana passada mais uma estudante do Sul do país usou o Twitter para destilar seu ódio e preconceito contra os nordestinos.

Entre adjetivos que não valem a pena aqui ser reproduzidos, a jovem, de 18 anos, escreveu no microblog que o povo dessa região, “que planta cana para comprar arroz, merece ir para uma câmara de gás”.

Como bem definiu Fábio de Oliveira Ribeiro, em artigo que pode ser lido aqui, o problema dos racistas e aspirantes a neonazistas do Sul/Sudeste é que eles não conhecem História. Defendem a hegemonia ariana, de descendência europeia, de “sangue azul”, mas não sabem que seus avós eram os nordestinos da Europa. Que emigraram para o Brasil em busca de oportunidades, já que lá viviam sem perspectivas.

Perambulando como pobres camponeses, eram considerados excedente populacional, indesejados pela elite europeia. Portanto, não pertenciam à nobreza.

Quando estes chegaram ao Brasil, à época do Império, o Sul e o Sudeste eram províncias desabitadas. Foram povoadas somente após a chegada desses emigrantes fugidos da Europa.

Ainda nesse período, a elite brasileira (brancos e escravocratas) era racista e queria branquear a população a qualquer custo. Nem que fosse importando o lixo populacional europeu.

Além de responderem por crime de racismo e xenofobia, responsáveis por tais atos deveriam também ser obrigados pela Justiça a frequentar aulas de História e a explicar essa parte da disciplina em trabalhos comunitários. Fica a sugestão.

11 de out. de 2011

O universo racional de Tim Maia

















Muita gente talvez duvide, mas uma das fases mais produtivas e viajandonas de Tim Maia foi nos anos 70, época em que ele conheceu a cultura do Racional Superior. Empolgado com a descoberta, Tim, que era ateu praticante, acreditava ter encontrado num livro - o "Universo em desencanto" - a resposta para a existência humana: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Parte dessa experiência é narrada na biografia "Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia (Objetiva)", pelo jornalista e produtor musical Nelson Motta.
  
Compenetrado na leitura do livro, Tim encaretou. Absteve-se do que chama de triathlon - parou de fumar, de cheirar e de beber. Ordenou que os músicos que o acompanhavam também ficassem limpos. Todos passaram a vestir roupas brancas. Fazia parte do processo de doutrina e purificação da tal imunização racional. 

"Somos originários de um planeta distante e perfeito e estamos na Terra exilados. Aqui, nós vivemos na animalidade, sujos e magnetizados, sofrendo nesse vale de lágrimas", pregava Tim Maia, que passava dias em retiro espiritual sob orientação de um velho sacerdote do Racional Superior numa casa em Belford Roxo, na Região Metropolitana do Rio.

"A única salvação é a imunização racional, que se conquista lendo o livro e seguindo seus ensinamentos. Só assim podemos nos purificar e ser resgatados pelos discos voadores de volta ao nosso planeta de origem: o Racional Superior", repetia ele certo de que estava no caminho do bem.

E justamente por estar limpo, dormindo e acordando cedo, Tim teve um notável ganho de qualidade na sua voz. Entrava no estúdio cada vez mais inspirado, e seus músicos com tesão ainda maior. De cabelo cortado e cara limpa, parecia um outro homem.  

Avisou à banda que estava compondo novas letras. Nada de falar em sexo, drogas e amores. Dali para a frente as músicas seriam dedicadas a divulgar a verdade libertadora do Racional Superior.


Com a verve norte-americana aflorada, vez que conhecera de perto o rhythm-and-blues e a soul music ainda por volta dos seus 18 anos nos EUA, Tim logo adaptou o reggae-soul "Que beleza", uma das músicas mais famosas da fase “racional”.

"Bom senso", chamada de melô da conversão, segundo Nelson Motta, também ficou bastante conhecida naquele período. Na canção, Tim fazia seu mea-culpa acompanhado de um deep-funk marcado por ataques de metais de alta precisão: 

"Já senti saudade,
já fiz muita coisa errada
já dormi na rua, já pedi ajuda".

Outra música na qual Tim Maia encarnava um autêntico americano, com um perfeito sotaque de Harlem, era “Ratinal Culture", conclamando os infiéis magnetizados a "read de book".

Seus músicos estavam inspiradíssimos. Mergulhados naquela aventura, nunca tocaram tão bem. O problema, porém, era a RCA. A gravadora não queria ter seu nome vinculado ao Racional Superior. Por isso, cancelou o contrato com Tim Maia. Nascia aí a Seroma Discos, com o próprio Tim agora produzindo, prensando e distribuindo o álbum duplo que já estava quase pronto.

E o final dessa história, como a maioria das que Tim Maia se envolvera em sua vida, não poderia deixar de terminar de maneira insólita. Decepcionado com falta de grana,Tim estava desiludido com o Racional Superior. Já havia lido sete livros, e sua situação só piorava. Cantava de graça, não bebia, não fazia sexo, nem fumava.

No dia 25 de dezembro de 1975, acordou com uma vontade louca de comer uma carne sangrenta, de tomar um goró e fumar um baseado. Chutou o pau da barraca. Voltou a ser o velho Tim que todos conheciam. Mandou queimar as roupas brancas e quebrar uma porrada de discos que sobraram da fase do Racional Superior.

Para fechar com chave de ouro, chamou a imprensa e avisou que tinha sido enganado e roubado por um pilantra chamado Manoel Jacinto, seu ex-guru, "um tarado que comia todo mundo". Não quis mais ouvir falar do Racional Superior. 

25 de jul. de 2011

Papo rápido com Paulo Henrique Amorim

No dia 8 de julho, uma sexta-feira, estive num evento no Bahia Othon Palace, em Salvador, no qual o jornalista Paulo Henrique Amorim foi um dos palestrantes. Moacy, também jornalista e editor do site em que trabalho, havia me falado que, ao menos naquela ocasião, o Paulo Henrique não falaria com nenhum veículo de comunicação por força de uma cláusula em seu contrato com a Record.  Mas surgiu uma brecha.  Pouco antes de a palestra começar, o apresentador do Domingo Espetacular e ex-correspondente da TV Globo nos recebeu à mesa de uma sala. Simpático e com o seu conhecido bordão --‘olá, tudo bem?, bateu um papo rápido conosco.

Paulo, o que é o PIG?
Paulo Henrique Amorim - O PIG é o Partido da Imprensa Golpista. É o partido que deu o tiro no peito do [Getúlio] Vargas, tentou impedir a posse do Juscelino Kubitschek, porque o Juscelino tinha como vice o Jango [João Goulart], que era o herdeiro político de Vargas. O PIG ajudou a derrubar o Jango. O PIG saudou o golpe de 1964 como ‘A ressurreição da Democracia’, foi esse o título do Editorial de O Globo no dia 2 de abril daquele ano. O PIG governou o Brasil com os militares. A Globo é resultado do governo militar. Ela serviu ao governo militar, e o governo militar a serviu. O PIG é o Partido da Imprensa Golpista que tentou impedir a posse de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, em 1982. O PIG tentou derrubar o Lula desde o primeiro dia do seu governo até o último. E agora o PIG tenta derrubar a Dilma. Esse é o PIG.

Como o PIG funciona na prática?
PHA - O PIG é a Globo, a Folha, o Estadão e todos os produtos que deles derivam: os portais da internet, as rádios, as editoras, as revistas [...] Eu não ponho a Veja nesse grupo porque ela não é uma publicação. A Veja, em minha opinião, que sou uma pessoa litorânea, nasci no Rio de Janeiro e conheço esse fenômeno muito bem, é um detrito de maré baixa.

E como enfrentá-lo?
PHA - Enfrenta-se o PIG com a verdade, o respeito à verdade factual, o respeito à objetividade, à tentativa de levar ao público, sobretudo por meio da internet, esse novo universo em que se trava a democracia no Brasil, fatos que o PIG não noticia. Por exemplo: estamos falando hoje, numa sexta-feira, dia 8 de julho de 2011 [...] Ontem a presidenta Dilma Roussef foi inaugurar um teleférico no Morro do Alemão, no alto do Complexo do Alemão [no Rio], onde o jornalista TIM Lopes foi assassinado [...] Isso é uma obra do PAC, do ex-presidente Lula. O teleférico vai permitir que a população favelada gaste cinco minutos do topo do Morro da Baiana até o trem da Central do Brasil. Antes eram 45 minutos para descer e 1 hora para descer o morro. Pois bem, o Jornal Nacional ontem dedicou a esse evento, que é simbólico, é significativo de uma mudança na política para enfrentar o crime, problemas de habitação, da educação e da saúde numa área de baixa renda [...] O Jornal Nacional dedicou a esse assunto menos tempo do que dedicou à Seleção do Galvão Bueno. Como se sabe, hoje, a Seleção do Brasil é escalada pelo Galvão Bueno.

Como você vê o início do governo Dilma?
PHA - Eu vejo o início do governo Dilma como, ao mesmo tempo, uma continuação do governo Lula, não podia ser de outra maneira, e a impressão de suas características pessoais. Eu espero que, com a demissão do Palloci e a demissão do [Alfredo] Nascimento do Ministério dos Transportes, a presidenta Dilma comece imprimir no seu governo uma identidade mais própria.


Em sua opinião, existe ingerência do Lula no governo da Dilma ou isso é apenas uma relação política?
PHA – Existe uma relação política, é óbvio, e existe também uma ingerência. O presidente Lula indicou vários dos ministros da presidenta, inclusive os dois que já caíram e um que cairá breve, que é o Nelson Johnbim. Nelson Johnbim é o ministro da Defesa. Eu não sei a quem ele defende, porque a mim ele não defende. Ele defende seguramente os militares que ajudaram a torturar no regime militar. O Nelson Johnbim que despachava como embaixador nos Estados Unidos para falar mal do governo Lula, governo a que ele servia. O Nelson Johbim que gabou-se recentemente de que os documentos que registraram a tortura no regime militar estavam sob a sua guarda. Esses documentos sumiram, desapareceram como folhas ao vento num dia de verão. Então, a OAB, pela mão do emérito professor e jurista Fábio Konder Comparato, trata de incriminar criminalmente [sic] o ministro que deixou que esses registros sumissem como folhas ao vento.

Você acha que o governo vai conseguir superar a dificuldade de relacionamento com a mídia?
PHA - A mídia quer derrubar Dilma, ponto.

E o que o governo pode fazer para reagir?
PHA - Deveria ter feito uma banda larga mais eficiente, com uma presença maior da Telebrás. Porque essa banda do ministro Paulo Bernardo [Comunicações] nada mais é do que as companhias telefônicas já fazem hoje. E, aqui na Bahia, vocês sabem muito bem, como eu sei, porque eu também passo boa parte do tempo na Bahia, casado que sou com uma baiana maravilhosa, para que serve a Oi.

E serve para quê mesmo?
PHA - Para mandar a conta no fim do mês.

Muito se fala que o governo do PT não enfrenta os poderosos do setor de telecomunicações, como também da mídia e do setor financeiro. O que você acha disso?
PHA - É verdade. O PT  de São Paulo, por exemplo, tem mais medo da Míriam Leitão do que do Daniel Dantas.


Em sua opinião, o Planalto não oferece o combustível que alimenta os veículos de comunicação (que você chama de PIG) a insistirem no tema corrupção?
PHA - O Planlato não alimenta. É muito saudável que surjam denúncias de corrupção e que a presidenta reaga com rapidez, como fez no caso dos transportes. Embora não tenha sido tão rápida no episódio do Palocci, já que o Palocci é do PT de São Paulo.

Você tem se mostrado um entusiasta do Brasil. De onde vem esse entusiasmo?
PHA - Da observação dos fatos. Basta olhar para a realidade que o PIG não mostra. O Brasil incorporou uma população da Espanha à classe média de 2002 pra cá. Por ano, 100 mil jovens da classe C entram na universidade. Para cada ano que eles ficam na universidade o salário deles cresce 10%.

A despeito dos grandes avanços, ainda convivemos com problemas em algumas áreas centrais para nosso maior crescimento, como na educação e na saúde. Apesar do Enem, ainda temos o analfabetismo. E apesar do SUS, há carência de atendimento. Onde está o nó dessas carências?
PHA - A saída desse nó é aprofundar as políticas públicas e torná-las mais eficazes.


24 de mar. de 2011

Lobão x Herbert Vianna: pé de guerra por quase duas décadas






















A relação entre Lobão e Herbert Vianna - dois importantes nomes do rock brasileiro nos anos 1980 - foi permeada por rusgas que perduraram por quase duas décadas. Descobri isso após ler recentemente a extensa e prazerosa autobiografia "Lobão - 50 anos a mil", coassinada em parceria com o jornalista Cláudio Tognolli. No livro, Lobão acusa, nas entrelinhas, o líder dos Paralamas do Sucesso de tê-lo plagiado.

Tudo começou em 1983, num quarto de hotel, em Canela (RS). Naquela ocasião, Lobão apresentara a Herbert uma canção sua, inédita, chamada “Rastaman’s in the Army”.

Depois de um tempo, Lobão diz ter escutado, no rádio, a música “Cinema Mudo”, dos Paralamas, que seria uma cópia daquela composição que ele havia mostrado ao “paralama”, numa guitarra desplugada. Ali nascera uma história de aproximadamente 20 anos de guerra, atenuada apenas quando o rival acidentou-se de ultraleve e ficou paraplégico.

No 35º capítulo do livro, Lobão afirma que Herbert mantinha "obsessão" por sua pessoa.

- Faço “Cena de Cinema” (1982), ele faz "Cinema Mudo” (1983), com a voz igual à minha. Tive que trocar de voz. Não é um plágio, mas é o conceito. Faço "Me Chama” (1984), ele faz "Me Liga” (1984). Chamo Elza Soares, o cara chama Elza Soares. Vou fazer um disco de samba para fugir dele, eles vêm com "Alagados" (1986) e se tornam pioneiros. Pô, é para enlouquecer - relata Lobão.

Em outro trecho, mais um episódio insólito:

- Entro no Fashion Mall (shopping da Zona Sul do Rio), um restaurante vazio, está Herbert Vianna, com a mulher e os três filhos. Não, não é possível. Quando me levanto, sabe o que ele faz? Sai correndo, feito um camelô! Deixou a família - narra Lobão.

Durante todo esse período, Lobão diz que até tentou falar com Herbert, que se dizia seu admirador. Telefonou-o e o convidou para uma parceiria. Sem sucesso.

- Já que você fala que sou ídolo, por que a gente não faz parceria? A gente divide o royalty direito. Você ganha 50, eu ganho 50, não é legal?”. Ele até ficou emocionado, chorou de um lado, eu chorei do outro. “Não posso agora, tô indo para Tóquio”. Nunca mais ligou.

Alguns anos depois, outra coincidência - desta vez envolvendo a cantora Fernanda Abreu - deixara Lobão ainda mais irado.

- A minha empresária, Leninha Brandão, tinha escritório ao lado do do empresário deles (José Fortes). Ele (Herbert Vianna) chegou no escritório, leu “Revanche” (1986) e disse: “Eureca! A favela é a nova senzala!”. Porra. Levo lata no Rock in Rio, tô tocando na Mangueira desde 1987 com Ivo Meirelles, meu parceiro. Dez anos depois, vem uma pessoa, que é a Fernanda Abreu, pega todo aquele conceito. Você vai checar: quem está produzindo e compondo todo o disco dela? É o cara.

Segundo Lobão, essa "pendenga", que o perturbou de 1983 a 1999, o levou a fazer análise, vez que ele já estava cansado de tanto odiar.

- Tinha outros problemas, mas esse foi o mote, muito mais importante do que ter matado a minha mãe. O que mais me fez sofrer e ter ódio na vida foi isso. Passava o dia inteiro com ódio, meu coração doía, ficava exausto.

Antes de dar sua versão sobre os fatos no livro, porém, Lobão avisa que, após o acidente com o Herbert, foi obrigado a rever suas posições em relação a ele. Por isso, pondera:

- Quero deixar pública a minha admiração pela sua força e pela capacidade de ultrapassar os tremendos obstáculos que a vida lhe impôs. Não só desenvolvi admiração, como também, por incrível que pareça, um certo afeto pelo Herbert - encerra Lobão

18 de fev. de 2011

Favela da Rocinha: nem tudo é o que parece



















Rio de Janeiro. Oito de agosto de 2009. Uma sexta-feira. No relógio 4h40 da matina. Céu ainda escuro. O barulho do motor dos helicópteros mistura-se aos estampidos de fuzis. Balas ricocheteiam por todos os lados. É mais uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) no combate ao tráfico de drogas nos morros cariocas. Desta vez, porém, a incursão tem um motivo especial para os policiais. Eles estão à cata do maior traficante e mais procurado do Rio de Janeiro: Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha.

À época, eu estava na Cidade Maravilhosa havia quatro meses, numa estada que duraria aproximadamente um ano. Desse período, três meses foram na Rocinha.

Caí lá de paraquedas. Explico por quê: como o contrato de aluguel da quitinete onde eu me hospedara desde junho daquele ano, na Tijuca, estava prestes a vencer, fui obrigado a entregar as chaves do imóvel e rumar para outro canto.

Para piorar a minha situação, sem fiador nem renda fixa a comprovar, conforme exigiam imobiliárias e proprietários em geral, não conseguia alugar um conjugado nem mesmo na Vila Mimosa - badalada zona de prostituição localizada entre a Tijuca e a Praça da Bandeira e cujos preços dos aluguéis são os mais baratos daquela região.

Foi quando o Frank, um baiano de Salvador, amigo de longa data e morador da Rocinha, me fez uma proposta. Com o aval de sua mãe e do seu padrasto, convidou-me para ficar em sua casa por uns tempos, enquanto eu procurava por uma nova morada. Não hesitei. Aceitei de pronto.


Da janela da sala, vista para o bairro de São Conrado, um dos mais ricos da cidade






















Ao contrário do que pode suscitar, eles vivem num apartamento confortável, com vista para a Praia de São Conrado e ar-condicionado - o que não significa luxo -, mas uma necessidade durante o verão escaldante do Rio.

Engana-se, ainda, quem pensa que as casas na Rocinha assemelham-se ao modelo de favela tradicional, repleta de barracos inóspitos, erguidos em madeirite.

 Lá é diferente. Há muitos prédios de cinco ou seis andares. Eu, por exemplo, só lembrava que estava numa "favela" quando abria a janela e avistava aquele apinhado de casas.


Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem: chefe do pó na Rocinha

















Minha chance de conhecer de perto o dia a dia da maior favela da América Latina estava selada. Ao vivo e em cores. Sem edições de imagens. Parece loucura, mas a verdade é que sempre tive vontade de um dia ver, in loco, o bicho literalmente pegar no Rio de Janeiro.

Queria conferir se tudo era tal como sugere o noticiário televisivo.

Diria o jornalista Caco Barcellos - autor de livros-reportagens que trazem à baila o submundo do tráfico e da corrupção policial (Rota 66 e Abusado, o dono do morro Dona Marta): "É o espírito jornalístico". Pode ser.



Maior da América Latina: comunidade possui cerca de 60 mil habitantes





















Certa vez ouvi dizer que as coisas na Rocinha nem sempre são como parecem.

Fincada na Zona Sul, área nobre da cidade, a comunidade é sinônimo de lucratividade para os chefões do mercado negro da droga. Por essa razão, a política da boa vizinhança é a que impera no local. Em casos de invasão da polícia, nada de revide. Agindo assim, o movimento do tráfico é restabelecido de maneira mais rápida.

Disse-me um comerciante local numa ocasião:
- Sem resistência, a maioria das operações termina em jogo de comadre.

Está explicado. Tudo realmente não passa do faz-de-conta. A polícia finge que invade, os bandidos fingem que são acossados... mas, meia-hora depois, tudo volta à normalidade.


O dia D


- Acorda, Alexandre... Você não queria tanto ver o bicho pegar na Rocinha? O Bope invadiu o morro. Levanta! - anunciava dona Cleusa, a mãe do meu amigo.

Sobressaltado e ainda meio sonolento, vibrei com a novidade pela qual tanto aguardara. Levantei. Queria registrá-la com uma câmera digital, mas, por motivos óbvios de segurança, recuei.

Em compensação, a visão que eu tinha de todo o morro era privilegiada. Da fresta da janela da sala, de esguelha, via três helicópteros sobrevoando a favela.

Voos rasantes tiravam fino das casas no alto do morro. De brucutu na cara, os caveiras (como são chamados os homens do Bope) sentavam o aço em direção ao matagal onde seria a provável rota de fuga dos traficantes.

Tudo não durou mais que meia-hora.






















Cessada a operação, desço para dar uma volta e percebo que os soldados do mal estão novamente a postos, munidos de forte poderio bélico. A essa altura o comércio de cocaína e maconha também já está a pleno vapor.

Ah... na Rocinha não se vende crack. A razão é simples: evitar a praga que aqui em Salvador atende pela alcunha de "sacizeiro".

Fuzis banhados em ouro, pistolas automáticas e granadas qual nada. A sensação do momento era uma bazuca recém-adquirida que a malandragam montara sobre um tripé no meio da rua.

Boquiaberto com tamanha ousadia, voltei para casa.

Após vivenciar tudo o que acontecera naquela manhã, não escondia minha ansiedade para ver a repercussão do fato na TV.

São 20h15. O teaser sensacionalista do Jornal Nacional anuncia:
- Polícia faz operação na Rocinha e apreende drogas e armamentos de uso exclusivo das Forças Armadas.

Matéria no ar. O som dos tiros agora se confundem com a voz ofegante do repórter, que, de colete à prova de balas, corre pelas vielas na parte baixa da Rocinha. Haja sensacionalismo. Da poltrona de casa o telespectador deve ter a sensação de que o Rio de Janeiro inteiro está em pé de guerra. Não é verdade.

E o saldo daquela ação, ressalte-se, era ínfimo diante do principal objetivo da polícia: capturar o chefe do pó na Rocinha. Foram apreendidos apenas alguns quilos de maconha, dois fuzis FAL, pasta base para a fabricação de cocaína, além da detenção de um menor, provavelmente o “laranja”.

Foi só a polícia bater em retirada que - com o perdão do tarimbado clichê - tudo voltara a ser como dantes no quartel de Abrantes.

Os jornais não mostram isso.

Desesperados por pontos no Ibope, preferem a espetacularização da notícia a informação verdadeira. Um desserviço à imagem do Rio. Amedronta o telespectador, que, mesmo sem conhecê-la, absorve a ideia negativa de que a cidade é a mais violenta do Brasil. Não é. E não sou eu quem digo. São os números. Basta melhor se informar.

Acrescento mais: a Rocinha, que ainda não conta com nenhuma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), é das poucas comunidades cariocas em que o indivíduo tem a liberdade de ir e vir. Sem pagar pedágio. A qualquer hora do dia, da noite. Falo com conhecimento de causa. Pois perdi a conta de quantas madrugadas bebi ou andei por lá, livremente, sem ser interpelado por bandido. Claro, não era nada agradável ver gente armada pra lá e pra cá, 24 horas por dia.

Mas uma coisa é certa: realmente nem tudo é o que parece.

Quem for ao Rio e quiser visitar a Rocinha que o faça sem maiores preocupações. Não há motivos para medo. A comunidade é aberta à visitação turística. Além disso, um tour pelo morro provará que a pecha de que a cidade é a mais violenta do Brasil é, no mínimo, equivocada.


PS: Só não pode vacilar. X-9 na área é micro-ondas* na certa.


*Método de incineração com pneus, utilizado para punir alcaguetes. 

Eu, com meu amigo Frank, na laje de sua casa, em março de 2008




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


9 de fev. de 2011

Mais atenção com as nossas crianças

Não lembro ter visto - ao menos em um espaço tão curto de tempo - tantas notícias a respeito de crianças vítimas de enfermeiros desastrados ou de pais irresponsáveis Brasil afora. Nos últimos dois meses, li e assisti nos noticiários a uma verdadeira enxurrada de reportagens do tipo. Isso sem falar dos casos sórdidos de pedofilia e de maus-tratos que vêm à luz diariamente.

O primeiro episódio do qual me recordo ocorreu na cidade de São Paulo, no mês de dezembro, e teve como vítima uma menina de apenas 12 anos. Em vez de soro, a auxiliar de enfermagem que a assistia aplicou-lhe vaselina líquida na veia. Stephanie dos Santos Teixeira morreu no dia 4 daquele mês por conta de uma infecção generalizada.

















À polícia, Kátia Aragaki, a enfermeira desastrada, alegou que a “pressão" no trabalho teria contribuído para que ela se distraísse e trocasse os frascos dos medicamentos. Não se sabe por que cargas d’água, mas os vasilhames, apesar de conterem substâncias diferentes, estavam guardados no mesmo lugar. Constatado o crime, Kátia fora indiciada por homicídio culposo - quando não há intenção de matar.

Outro fato não menos desastroso aconteceu em meados de janeiro, aqui na Bahia, com a morte de um bebê de pouco mais de 1 ano. Nesse evento, porém, a própria mãe de Adriano Portugal Santana admitiu tê-lo deixado sozinho por alguns instantes para ir ao banheiro do hospital onde o pequeno encontrava-se internado, em Feira de Santana. Nesse ínterim, enquanto ela aliviava a bexiga, o menino teria despencado do berço e batido com a cabeça no chão. Apresentando sonolência, os médicos diagnosticaram que o garoto sofrera uma crise convulsiva seguida de traumatismo craniano. Dias depois, Adriano teve duas paradas cardíacas e não resistiu.

Os absurdos não pararam por aí.

No dia 30 de janeiro, mais uma vez na capital paulista, outra auxiliar de enfermagem figurava como algoz de uma criança indefesa. O motivo? Ao tentar retirar a bandagem da mão de uma menina de 1 ano, ela conseguiu cortar parte do dedo da garotinha.

Pois bem... Situações como as citadas acima seriam apenas emblemáticas, não fossem tão corriqueiras nos tempos em que faculdades e cursos destinados a profissionais de enfermagem surgem numa profusão nunca antes vista nos quatro cantos do país.

Não é novidade, mas convenhamos que educação técnica/superior, há muito, tornou-se sinônimo de negócio dos mais lucrativos. No entanto, ao se fazer justiça às instituições de ensino e aos profissionais que verdadeiramente zelam pelo exercício responsável de suas atividades, o certo é que já virou moda ver gente sem a mínima instrução fundamental a desfilar nas ruas com seus jalecos encardidos, a tiracolo, posando de doutor.

Em épocas de mercado competitivo, como rezam as propagandas das faculdades, o que vale mesmo é ter um diploma superior - mesmo que este seja arranjado a qualquer custo ou que para isso crianças inocentes tenham seus dedos mutilados e vaselina injetada em suas veias.

19 de jan. de 2011

Ronaldinho Gaúcho e a tragédia das chuvas no Rio

Há pouco mais de uma semana, Ronaldinho Gaúcho aportava na Gávea com toda pompa a que um jogador da sua estirpe tem direito no showbiz da bola. O problema, porém, é que a festança organizada para a recepção do craque, ciceroneada por pagodeiros e mulheres-frutas, destoava - e muito - da hecatombe que, na madrugada daquele mesmo dia, devastara a região serrana do Estado. Enquanto mais de 20 mil flamenguistas, ensandecidos, gritavam o nome do recém-chegado ídolo, em algum lugar não tão distante dali, milhares de pessoas entoavam, em uníssono, um outro cântico: o do desespero.

Aliás, a julgar pelas imagens estarrecedoras dessa que é considerada a maior catástrofe provocada pelas chuvas no Rio de Janeiro, acredito não ter visto cenas tão chocantes nem no mais hollywoodiano dos filmes.

Cessada a tormenta, o momento agora é de solidariedade - gesto que, felizmente, o brasileiro faz valer  nessas horas, embora haja sempre quem se aproveite do ensejo para pôr em prática a famosa "Lei de Gerson". Bom que tanta gente esteja sensibilizada com o sofrimento do próximo, mas a verdade é que muitos que poderiam fazer a diferença não estão nem aí para a desgraça alheia.

E foi justamente essa a impressão que tive da presidente do Flamengo, Patrícia Amorim. Além de não agir com o mínimo de bom senso em respeito às vítimas do temporal, ela poderia ao menos ter aproveitado o circo armado para ajudar a minorar a dor de quem realmente precisava de alento naquela ocasião - e não elevar às nuvens o ego de um cidadão que já está, como reza o dito popular, com as burras cheias de dinheiro.

Aposto que, se fossem convocados a fazê-lo, os torcedores levariam toneladas de donativos para terem acesso à festa. Vale lembrar que a maioria só adentrou o gramado da Gávea porque pôs a baixo, a fórceps, o portão que dá acesso ao local.

Acompanhei toda a transmissão, ao vivo, pelo SporTV, e também não me recordo de ter visto o Ronaldinho Gaúcho fazer qualquer menção ao desastre da região serrana. Em nenhum momento.

Soube, no entanto, que um grupo de internautas está pedindo ao jogador que ajude aos desabrigados doando seu primeiro salário – algo em torno dos R$ 1, 8 milhão. À impensa, R10 disse que fará tudo o que estiver ao seu alcance. Sinceramente, duvido que o dentuço vá abrir mão do valor integral de sua fortuna em favor dos mais necessitados. Como de praxe no mundo do futebol, o máximo que jogadores mercenários como ele fazem é leiloar uma camisa oficial do clube em que atuam e doar a quantia arrecadada.

Infelizmente, é como bem falam por aí: pimenta nos olhos dos outros é refresco - para não dizer outra coisa.

14 de jan. de 2011

Salve-se quem puder!

A polêmica em torno da participação dos jegues na Lavagem do Bonfim trouxe à baila uma série de opiniões a respeito da decisão da Justiça, que bateu o martelo e proibiu a presença dos animais na festa.

Apesar de louvável, em minha humilde opinião, a determinação deixou muita gente contrariada com a “quebra” da tradição. Nas redes sociais, li comentários deploráveis - do tipo “a Justiça não tem mais o que fazer?” -, reverberados até mesmo por alguns nobres colegas jornalistas.

Se não estão nem aí para os bichos ou não simpatizam com os pobres jegues, esse tipo de gente deveria ao menos se informar melhor e tomar nota de que, para as situações de maus-tratos, está o Artigo 32, da Lei Federal nº. 9.605-98 - a Lei de Crimes Ambientais.

E foi justamente com base na referida norma que o Judiciário baiano, de modo veemente, agiu - o que representa um grande passo para conscientizar nossa sociedade medieval de que os animais também merecem tratamento digno.

Não sou adepto a festas de largo de nenhum tipo, porém, respeito as tradições e costumes de qualquer povo. Só não acho justo judiar dos indefesos jegues.

Imagine o nível de estresse a que eles são submetidos, ao cruzararem uma ponta a outra da cidade - da Conceição da Praia ao Bonfim -, com um monte de tralha sobre o lombo, num calor vulcânico, sem água e numa barulheira orquestral!

“A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados", já dizia Mahatma Gandhi.

No entanto, a falta de respeito aos animais ilustra apenas parte da relação perversa que o homem mantém com o planeta.

E o que falar dos desastres naturais, que, com cada vez mais frequência e ferocidade, varrem cidades inteiras, a exemplo do que devastou a região serrana do Rio de Janeiro nos últimos dias? É, sem dúvida, a resposta da natureza, dando de volta ao homem toda a sua maldade e ganância.

Lamentavelmente, cenas pavorosas, como as exibidas à exaustão na última semana, se repetirão com mais assiduidade daqui para frente.

Não tem jeito: a natureza cobra, e até quem não tem nada a ver acaba pagando.

Salve-se quem puder!