11 de out. de 2011

O universo racional de Tim Maia

















Muita gente talvez duvide, mas uma das fases mais produtivas e viajandonas de Tim Maia foi nos anos 70, época em que ele conheceu a cultura do Racional Superior. Empolgado com a descoberta, Tim, que era ateu praticante, acreditava ter encontrado num livro - o "Universo em desencanto" - a resposta para a existência humana: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Parte dessa experiência é narrada na biografia "Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia (Objetiva)", pelo jornalista e produtor musical Nelson Motta.
  
Compenetrado na leitura do livro, Tim encaretou. Absteve-se do que chama de triathlon - parou de fumar, de cheirar e de beber. Ordenou que os músicos que o acompanhavam também ficassem limpos. Todos passaram a vestir roupas brancas. Fazia parte do processo de doutrina e purificação da tal imunização racional. 

"Somos originários de um planeta distante e perfeito e estamos na Terra exilados. Aqui, nós vivemos na animalidade, sujos e magnetizados, sofrendo nesse vale de lágrimas", pregava Tim Maia, que passava dias em retiro espiritual sob orientação de um velho sacerdote do Racional Superior numa casa em Belford Roxo, na Região Metropolitana do Rio.

"A única salvação é a imunização racional, que se conquista lendo o livro e seguindo seus ensinamentos. Só assim podemos nos purificar e ser resgatados pelos discos voadores de volta ao nosso planeta de origem: o Racional Superior", repetia ele certo de que estava no caminho do bem.

E justamente por estar limpo, dormindo e acordando cedo, Tim teve um notável ganho de qualidade na sua voz. Entrava no estúdio cada vez mais inspirado, e seus músicos com tesão ainda maior. De cabelo cortado e cara limpa, parecia um outro homem.  

Avisou à banda que estava compondo novas letras. Nada de falar em sexo, drogas e amores. Dali para a frente as músicas seriam dedicadas a divulgar a verdade libertadora do Racional Superior.


Com a verve norte-americana aflorada, vez que conhecera de perto o rhythm-and-blues e a soul music ainda por volta dos seus 18 anos nos EUA, Tim logo adaptou o reggae-soul "Que beleza", uma das músicas mais famosas da fase “racional”.

"Bom senso", chamada de melô da conversão, segundo Nelson Motta, também ficou bastante conhecida naquele período. Na canção, Tim fazia seu mea-culpa acompanhado de um deep-funk marcado por ataques de metais de alta precisão: 

"Já senti saudade,
já fiz muita coisa errada
já dormi na rua, já pedi ajuda".

Outra música na qual Tim Maia encarnava um autêntico americano, com um perfeito sotaque de Harlem, era “Ratinal Culture", conclamando os infiéis magnetizados a "read de book".

Seus músicos estavam inspiradíssimos. Mergulhados naquela aventura, nunca tocaram tão bem. O problema, porém, era a RCA. A gravadora não queria ter seu nome vinculado ao Racional Superior. Por isso, cancelou o contrato com Tim Maia. Nascia aí a Seroma Discos, com o próprio Tim agora produzindo, prensando e distribuindo o álbum duplo que já estava quase pronto.

E o final dessa história, como a maioria das que Tim Maia se envolvera em sua vida, não poderia deixar de terminar de maneira insólita. Decepcionado com falta de grana,Tim estava desiludido com o Racional Superior. Já havia lido sete livros, e sua situação só piorava. Cantava de graça, não bebia, não fazia sexo, nem fumava.

No dia 25 de dezembro de 1975, acordou com uma vontade louca de comer uma carne sangrenta, de tomar um goró e fumar um baseado. Chutou o pau da barraca. Voltou a ser o velho Tim que todos conheciam. Mandou queimar as roupas brancas e quebrar uma porrada de discos que sobraram da fase do Racional Superior.

Para fechar com chave de ouro, chamou a imprensa e avisou que tinha sido enganado e roubado por um pilantra chamado Manoel Jacinto, seu ex-guru, "um tarado que comia todo mundo". Não quis mais ouvir falar do Racional Superior.