25 de jul. de 2011

Papo rápido com Paulo Henrique Amorim

No dia 8 de julho, uma sexta-feira, estive num evento no Bahia Othon Palace, em Salvador, no qual o jornalista Paulo Henrique Amorim foi um dos palestrantes. Moacy, também jornalista e editor do site em que trabalho, havia me falado que, ao menos naquela ocasião, o Paulo Henrique não falaria com nenhum veículo de comunicação por força de uma cláusula em seu contrato com a Record.  Mas surgiu uma brecha.  Pouco antes de a palestra começar, o apresentador do Domingo Espetacular e ex-correspondente da TV Globo nos recebeu à mesa de uma sala. Simpático e com o seu conhecido bordão --‘olá, tudo bem?, bateu um papo rápido conosco.

Paulo, o que é o PIG?
Paulo Henrique Amorim - O PIG é o Partido da Imprensa Golpista. É o partido que deu o tiro no peito do [Getúlio] Vargas, tentou impedir a posse do Juscelino Kubitschek, porque o Juscelino tinha como vice o Jango [João Goulart], que era o herdeiro político de Vargas. O PIG ajudou a derrubar o Jango. O PIG saudou o golpe de 1964 como ‘A ressurreição da Democracia’, foi esse o título do Editorial de O Globo no dia 2 de abril daquele ano. O PIG governou o Brasil com os militares. A Globo é resultado do governo militar. Ela serviu ao governo militar, e o governo militar a serviu. O PIG é o Partido da Imprensa Golpista que tentou impedir a posse de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, em 1982. O PIG tentou derrubar o Lula desde o primeiro dia do seu governo até o último. E agora o PIG tenta derrubar a Dilma. Esse é o PIG.

Como o PIG funciona na prática?
PHA - O PIG é a Globo, a Folha, o Estadão e todos os produtos que deles derivam: os portais da internet, as rádios, as editoras, as revistas [...] Eu não ponho a Veja nesse grupo porque ela não é uma publicação. A Veja, em minha opinião, que sou uma pessoa litorânea, nasci no Rio de Janeiro e conheço esse fenômeno muito bem, é um detrito de maré baixa.

E como enfrentá-lo?
PHA - Enfrenta-se o PIG com a verdade, o respeito à verdade factual, o respeito à objetividade, à tentativa de levar ao público, sobretudo por meio da internet, esse novo universo em que se trava a democracia no Brasil, fatos que o PIG não noticia. Por exemplo: estamos falando hoje, numa sexta-feira, dia 8 de julho de 2011 [...] Ontem a presidenta Dilma Roussef foi inaugurar um teleférico no Morro do Alemão, no alto do Complexo do Alemão [no Rio], onde o jornalista TIM Lopes foi assassinado [...] Isso é uma obra do PAC, do ex-presidente Lula. O teleférico vai permitir que a população favelada gaste cinco minutos do topo do Morro da Baiana até o trem da Central do Brasil. Antes eram 45 minutos para descer e 1 hora para descer o morro. Pois bem, o Jornal Nacional ontem dedicou a esse evento, que é simbólico, é significativo de uma mudança na política para enfrentar o crime, problemas de habitação, da educação e da saúde numa área de baixa renda [...] O Jornal Nacional dedicou a esse assunto menos tempo do que dedicou à Seleção do Galvão Bueno. Como se sabe, hoje, a Seleção do Brasil é escalada pelo Galvão Bueno.

Como você vê o início do governo Dilma?
PHA - Eu vejo o início do governo Dilma como, ao mesmo tempo, uma continuação do governo Lula, não podia ser de outra maneira, e a impressão de suas características pessoais. Eu espero que, com a demissão do Palloci e a demissão do [Alfredo] Nascimento do Ministério dos Transportes, a presidenta Dilma comece imprimir no seu governo uma identidade mais própria.


Em sua opinião, existe ingerência do Lula no governo da Dilma ou isso é apenas uma relação política?
PHA – Existe uma relação política, é óbvio, e existe também uma ingerência. O presidente Lula indicou vários dos ministros da presidenta, inclusive os dois que já caíram e um que cairá breve, que é o Nelson Johnbim. Nelson Johnbim é o ministro da Defesa. Eu não sei a quem ele defende, porque a mim ele não defende. Ele defende seguramente os militares que ajudaram a torturar no regime militar. O Nelson Johnbim que despachava como embaixador nos Estados Unidos para falar mal do governo Lula, governo a que ele servia. O Nelson Johbim que gabou-se recentemente de que os documentos que registraram a tortura no regime militar estavam sob a sua guarda. Esses documentos sumiram, desapareceram como folhas ao vento num dia de verão. Então, a OAB, pela mão do emérito professor e jurista Fábio Konder Comparato, trata de incriminar criminalmente [sic] o ministro que deixou que esses registros sumissem como folhas ao vento.

Você acha que o governo vai conseguir superar a dificuldade de relacionamento com a mídia?
PHA - A mídia quer derrubar Dilma, ponto.

E o que o governo pode fazer para reagir?
PHA - Deveria ter feito uma banda larga mais eficiente, com uma presença maior da Telebrás. Porque essa banda do ministro Paulo Bernardo [Comunicações] nada mais é do que as companhias telefônicas já fazem hoje. E, aqui na Bahia, vocês sabem muito bem, como eu sei, porque eu também passo boa parte do tempo na Bahia, casado que sou com uma baiana maravilhosa, para que serve a Oi.

E serve para quê mesmo?
PHA - Para mandar a conta no fim do mês.

Muito se fala que o governo do PT não enfrenta os poderosos do setor de telecomunicações, como também da mídia e do setor financeiro. O que você acha disso?
PHA - É verdade. O PT  de São Paulo, por exemplo, tem mais medo da Míriam Leitão do que do Daniel Dantas.


Em sua opinião, o Planalto não oferece o combustível que alimenta os veículos de comunicação (que você chama de PIG) a insistirem no tema corrupção?
PHA - O Planlato não alimenta. É muito saudável que surjam denúncias de corrupção e que a presidenta reaga com rapidez, como fez no caso dos transportes. Embora não tenha sido tão rápida no episódio do Palocci, já que o Palocci é do PT de São Paulo.

Você tem se mostrado um entusiasta do Brasil. De onde vem esse entusiasmo?
PHA - Da observação dos fatos. Basta olhar para a realidade que o PIG não mostra. O Brasil incorporou uma população da Espanha à classe média de 2002 pra cá. Por ano, 100 mil jovens da classe C entram na universidade. Para cada ano que eles ficam na universidade o salário deles cresce 10%.

A despeito dos grandes avanços, ainda convivemos com problemas em algumas áreas centrais para nosso maior crescimento, como na educação e na saúde. Apesar do Enem, ainda temos o analfabetismo. E apesar do SUS, há carência de atendimento. Onde está o nó dessas carências?
PHA - A saída desse nó é aprofundar as políticas públicas e torná-las mais eficazes.


Nenhum comentário: