18 de fev. de 2011

Favela da Rocinha: nem tudo é o que parece



















Rio de Janeiro. Oito de agosto de 2009. Uma sexta-feira. No relógio 4h40 da matina. Céu ainda escuro. O barulho do motor dos helicópteros mistura-se aos estampidos de fuzis. Balas ricocheteiam por todos os lados. É mais uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) no combate ao tráfico de drogas nos morros cariocas. Desta vez, porém, a incursão tem um motivo especial para os policiais. Eles estão à cata do maior traficante e mais procurado do Rio de Janeiro: Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha.

À época, eu estava na Cidade Maravilhosa havia quatro meses, numa estada que duraria aproximadamente um ano. Desse período, três meses foram na Rocinha.

Caí lá de paraquedas. Explico por quê: como o contrato de aluguel da quitinete onde eu me hospedara desde junho daquele ano, na Tijuca, estava prestes a vencer, fui obrigado a entregar as chaves do imóvel e rumar para outro canto.

Para piorar a minha situação, sem fiador nem renda fixa a comprovar, conforme exigiam imobiliárias e proprietários em geral, não conseguia alugar um conjugado nem mesmo na Vila Mimosa - badalada zona de prostituição localizada entre a Tijuca e a Praça da Bandeira e cujos preços dos aluguéis são os mais baratos daquela região.

Foi quando o Frank, um baiano de Salvador, amigo de longa data e morador da Rocinha, me fez uma proposta. Com o aval de sua mãe e do seu padrasto, convidou-me para ficar em sua casa por uns tempos, enquanto eu procurava por uma nova morada. Não hesitei. Aceitei de pronto.


Da janela da sala, vista para o bairro de São Conrado, um dos mais ricos da cidade






















Ao contrário do que pode suscitar, eles vivem num apartamento confortável, com vista para a Praia de São Conrado e ar-condicionado - o que não significa luxo -, mas uma necessidade durante o verão escaldante do Rio.

Engana-se, ainda, quem pensa que as casas na Rocinha assemelham-se ao modelo de favela tradicional, repleta de barracos inóspitos, erguidos em madeirite.

 Lá é diferente. Há muitos prédios de cinco ou seis andares. Eu, por exemplo, só lembrava que estava numa "favela" quando abria a janela e avistava aquele apinhado de casas.


Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem: chefe do pó na Rocinha

















Minha chance de conhecer de perto o dia a dia da maior favela da América Latina estava selada. Ao vivo e em cores. Sem edições de imagens. Parece loucura, mas a verdade é que sempre tive vontade de um dia ver, in loco, o bicho literalmente pegar no Rio de Janeiro.

Queria conferir se tudo era tal como sugere o noticiário televisivo.

Diria o jornalista Caco Barcellos - autor de livros-reportagens que trazem à baila o submundo do tráfico e da corrupção policial (Rota 66 e Abusado, o dono do morro Dona Marta): "É o espírito jornalístico". Pode ser.



Maior da América Latina: comunidade possui cerca de 60 mil habitantes





















Certa vez ouvi dizer que as coisas na Rocinha nem sempre são como parecem.

Fincada na Zona Sul, área nobre da cidade, a comunidade é sinônimo de lucratividade para os chefões do mercado negro da droga. Por essa razão, a política da boa vizinhança é a que impera no local. Em casos de invasão da polícia, nada de revide. Agindo assim, o movimento do tráfico é restabelecido de maneira mais rápida.

Disse-me um comerciante local numa ocasião:
- Sem resistência, a maioria das operações termina em jogo de comadre.

Está explicado. Tudo realmente não passa do faz-de-conta. A polícia finge que invade, os bandidos fingem que são acossados... mas, meia-hora depois, tudo volta à normalidade.


O dia D


- Acorda, Alexandre... Você não queria tanto ver o bicho pegar na Rocinha? O Bope invadiu o morro. Levanta! - anunciava dona Cleusa, a mãe do meu amigo.

Sobressaltado e ainda meio sonolento, vibrei com a novidade pela qual tanto aguardara. Levantei. Queria registrá-la com uma câmera digital, mas, por motivos óbvios de segurança, recuei.

Em compensação, a visão que eu tinha de todo o morro era privilegiada. Da fresta da janela da sala, de esguelha, via três helicópteros sobrevoando a favela.

Voos rasantes tiravam fino das casas no alto do morro. De brucutu na cara, os caveiras (como são chamados os homens do Bope) sentavam o aço em direção ao matagal onde seria a provável rota de fuga dos traficantes.

Tudo não durou mais que meia-hora.






















Cessada a operação, desço para dar uma volta e percebo que os soldados do mal estão novamente a postos, munidos de forte poderio bélico. A essa altura o comércio de cocaína e maconha também já está a pleno vapor.

Ah... na Rocinha não se vende crack. A razão é simples: evitar a praga que aqui em Salvador atende pela alcunha de "sacizeiro".

Fuzis banhados em ouro, pistolas automáticas e granadas qual nada. A sensação do momento era uma bazuca recém-adquirida que a malandragam montara sobre um tripé no meio da rua.

Boquiaberto com tamanha ousadia, voltei para casa.

Após vivenciar tudo o que acontecera naquela manhã, não escondia minha ansiedade para ver a repercussão do fato na TV.

São 20h15. O teaser sensacionalista do Jornal Nacional anuncia:
- Polícia faz operação na Rocinha e apreende drogas e armamentos de uso exclusivo das Forças Armadas.

Matéria no ar. O som dos tiros agora se confundem com a voz ofegante do repórter, que, de colete à prova de balas, corre pelas vielas na parte baixa da Rocinha. Haja sensacionalismo. Da poltrona de casa o telespectador deve ter a sensação de que o Rio de Janeiro inteiro está em pé de guerra. Não é verdade.

E o saldo daquela ação, ressalte-se, era ínfimo diante do principal objetivo da polícia: capturar o chefe do pó na Rocinha. Foram apreendidos apenas alguns quilos de maconha, dois fuzis FAL, pasta base para a fabricação de cocaína, além da detenção de um menor, provavelmente o “laranja”.

Foi só a polícia bater em retirada que - com o perdão do tarimbado clichê - tudo voltara a ser como dantes no quartel de Abrantes.

Os jornais não mostram isso.

Desesperados por pontos no Ibope, preferem a espetacularização da notícia a informação verdadeira. Um desserviço à imagem do Rio. Amedronta o telespectador, que, mesmo sem conhecê-la, absorve a ideia negativa de que a cidade é a mais violenta do Brasil. Não é. E não sou eu quem digo. São os números. Basta melhor se informar.

Acrescento mais: a Rocinha, que ainda não conta com nenhuma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), é das poucas comunidades cariocas em que o indivíduo tem a liberdade de ir e vir. Sem pagar pedágio. A qualquer hora do dia, da noite. Falo com conhecimento de causa. Pois perdi a conta de quantas madrugadas bebi ou andei por lá, livremente, sem ser interpelado por bandido. Claro, não era nada agradável ver gente armada pra lá e pra cá, 24 horas por dia.

Mas uma coisa é certa: realmente nem tudo é o que parece.

Quem for ao Rio e quiser visitar a Rocinha que o faça sem maiores preocupações. Não há motivos para medo. A comunidade é aberta à visitação turística. Além disso, um tour pelo morro provará que a pecha de que a cidade é a mais violenta do Brasil é, no mínimo, equivocada.


PS: Só não pode vacilar. X-9 na área é micro-ondas* na certa.


*Método de incineração com pneus, utilizado para punir alcaguetes. 

Eu, com meu amigo Frank, na laje de sua casa, em março de 2008




 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


9 de fev. de 2011

Mais atenção com as nossas crianças

Não lembro ter visto - ao menos em um espaço tão curto de tempo - tantas notícias a respeito de crianças vítimas de enfermeiros desastrados ou de pais irresponsáveis Brasil afora. Nos últimos dois meses, li e assisti nos noticiários a uma verdadeira enxurrada de reportagens do tipo. Isso sem falar dos casos sórdidos de pedofilia e de maus-tratos que vêm à luz diariamente.

O primeiro episódio do qual me recordo ocorreu na cidade de São Paulo, no mês de dezembro, e teve como vítima uma menina de apenas 12 anos. Em vez de soro, a auxiliar de enfermagem que a assistia aplicou-lhe vaselina líquida na veia. Stephanie dos Santos Teixeira morreu no dia 4 daquele mês por conta de uma infecção generalizada.

















À polícia, Kátia Aragaki, a enfermeira desastrada, alegou que a “pressão" no trabalho teria contribuído para que ela se distraísse e trocasse os frascos dos medicamentos. Não se sabe por que cargas d’água, mas os vasilhames, apesar de conterem substâncias diferentes, estavam guardados no mesmo lugar. Constatado o crime, Kátia fora indiciada por homicídio culposo - quando não há intenção de matar.

Outro fato não menos desastroso aconteceu em meados de janeiro, aqui na Bahia, com a morte de um bebê de pouco mais de 1 ano. Nesse evento, porém, a própria mãe de Adriano Portugal Santana admitiu tê-lo deixado sozinho por alguns instantes para ir ao banheiro do hospital onde o pequeno encontrava-se internado, em Feira de Santana. Nesse ínterim, enquanto ela aliviava a bexiga, o menino teria despencado do berço e batido com a cabeça no chão. Apresentando sonolência, os médicos diagnosticaram que o garoto sofrera uma crise convulsiva seguida de traumatismo craniano. Dias depois, Adriano teve duas paradas cardíacas e não resistiu.

Os absurdos não pararam por aí.

No dia 30 de janeiro, mais uma vez na capital paulista, outra auxiliar de enfermagem figurava como algoz de uma criança indefesa. O motivo? Ao tentar retirar a bandagem da mão de uma menina de 1 ano, ela conseguiu cortar parte do dedo da garotinha.

Pois bem... Situações como as citadas acima seriam apenas emblemáticas, não fossem tão corriqueiras nos tempos em que faculdades e cursos destinados a profissionais de enfermagem surgem numa profusão nunca antes vista nos quatro cantos do país.

Não é novidade, mas convenhamos que educação técnica/superior, há muito, tornou-se sinônimo de negócio dos mais lucrativos. No entanto, ao se fazer justiça às instituições de ensino e aos profissionais que verdadeiramente zelam pelo exercício responsável de suas atividades, o certo é que já virou moda ver gente sem a mínima instrução fundamental a desfilar nas ruas com seus jalecos encardidos, a tiracolo, posando de doutor.

Em épocas de mercado competitivo, como rezam as propagandas das faculdades, o que vale mesmo é ter um diploma superior - mesmo que este seja arranjado a qualquer custo ou que para isso crianças inocentes tenham seus dedos mutilados e vaselina injetada em suas veias.