24 de mar. de 2011
Lobão x Herbert Vianna: pé de guerra por quase duas décadas
A relação entre Lobão e Herbert Vianna - dois importantes nomes do rock brasileiro nos anos 1980 - foi permeada por rusgas que perduraram por quase duas décadas. Descobri isso após ler recentemente a extensa e prazerosa autobiografia "Lobão - 50 anos a mil", coassinada em parceria com o jornalista Cláudio Tognolli. No livro, Lobão acusa, nas entrelinhas, o líder dos Paralamas do Sucesso de tê-lo plagiado.
Tudo começou em 1983, num quarto de hotel, em Canela (RS). Naquela ocasião, Lobão apresentara a Herbert uma canção sua, inédita, chamada “Rastaman’s in the Army”.
Depois de um tempo, Lobão diz ter escutado, no rádio, a música “Cinema Mudo”, dos Paralamas, que seria uma cópia daquela composição que ele havia mostrado ao “paralama”, numa guitarra desplugada. Ali nascera uma história de aproximadamente 20 anos de guerra, atenuada apenas quando o rival acidentou-se de ultraleve e ficou paraplégico.
No 35º capítulo do livro, Lobão afirma que Herbert mantinha "obsessão" por sua pessoa.
- Faço “Cena de Cinema” (1982), ele faz "Cinema Mudo” (1983), com a voz igual à minha. Tive que trocar de voz. Não é um plágio, mas é o conceito. Faço "Me Chama” (1984), ele faz "Me Liga” (1984). Chamo Elza Soares, o cara chama Elza Soares. Vou fazer um disco de samba para fugir dele, eles vêm com "Alagados" (1986) e se tornam pioneiros. Pô, é para enlouquecer - relata Lobão.
Em outro trecho, mais um episódio insólito:
- Entro no Fashion Mall (shopping da Zona Sul do Rio), um restaurante vazio, está Herbert Vianna, com a mulher e os três filhos. Não, não é possível. Quando me levanto, sabe o que ele faz? Sai correndo, feito um camelô! Deixou a família - narra Lobão.
Durante todo esse período, Lobão diz que até tentou falar com Herbert, que se dizia seu admirador. Telefonou-o e o convidou para uma parceiria. Sem sucesso.
- Já que você fala que sou ídolo, por que a gente não faz parceria? A gente divide o royalty direito. Você ganha 50, eu ganho 50, não é legal?”. Ele até ficou emocionado, chorou de um lado, eu chorei do outro. “Não posso agora, tô indo para Tóquio”. Nunca mais ligou.
Alguns anos depois, outra coincidência - desta vez envolvendo a cantora Fernanda Abreu - deixara Lobão ainda mais irado.
- A minha empresária, Leninha Brandão, tinha escritório ao lado do do empresário deles (José Fortes). Ele (Herbert Vianna) chegou no escritório, leu “Revanche” (1986) e disse: “Eureca! A favela é a nova senzala!”. Porra. Levo lata no Rock in Rio, tô tocando na Mangueira desde 1987 com Ivo Meirelles, meu parceiro. Dez anos depois, vem uma pessoa, que é a Fernanda Abreu, pega todo aquele conceito. Você vai checar: quem está produzindo e compondo todo o disco dela? É o cara.
Segundo Lobão, essa "pendenga", que o perturbou de 1983 a 1999, o levou a fazer análise, vez que ele já estava cansado de tanto odiar.
- Tinha outros problemas, mas esse foi o mote, muito mais importante do que ter matado a minha mãe. O que mais me fez sofrer e ter ódio na vida foi isso. Passava o dia inteiro com ódio, meu coração doía, ficava exausto.
Antes de dar sua versão sobre os fatos no livro, porém, Lobão avisa que, após o acidente com o Herbert, foi obrigado a rever suas posições em relação a ele. Por isso, pondera:
- Quero deixar pública a minha admiração pela sua força e pela capacidade de ultrapassar os tremendos obstáculos que a vida lhe impôs. Não só desenvolvi admiração, como também, por incrível que pareça, um certo afeto pelo Herbert - encerra Lobão
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4 comentários:
Muito bom o texto sobre o assunto Alexandre. Vi uma entrevista dele sobre isso tem tempinho e fiquei impressionado. Ainda não li o livro, mas não vejo a hora de fazê-lo. Abs!
Vi uma declaração do Lobão sobre essa perseguição do Hebert, mas não sabia como tudo começou. Acompanhei pela internet o passo-a-passo dessa biografia, mas ainda não tive a oportunidade de ler. Valeu pela informação!
Estamos na vida para isso mesmo, para nos superarmos, perdoarmos e nos tornarmos pessoas melhores, espiritos mais leves. Abraço, irmão!!
Luís Rocha
Paralamas (pra não falar só do Herbert) trucida, não?
Bi e Barone arrebentam geral, Herbert é um compositor dos que são difíceis de se achar hoje em dia, mas é chatinho demais vez ou outra...
Herbert anda a cem, LOBÃO ANDA A MIL!
Sei como funciona isso, é uma linha tênue entre a admiração e a vontade de "ser"...
Puta biografia, estou sedento pra ler
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